ama-lá de "Arya
Debaixo dos Pés", porque dizia que era aí que ela
estava sempre. Gostava muito mais desse nome do
que de "Arya Cara de Cavalo".
Mas isso era Winterfell, a um mundo de distância, e
agora tudo mudara. Aquela era a primeira vez que
tinham comido uma refeição com os homens desde a
chegada a Porto Real. E Arya detestou. Agora
detestava o som de suas vozes, o modo como riam, as
histórias que contavam. Tinham sido seus amigos,
tinha se sentido segura junto deles, mas agora sabia
que isso era uma mentira. Tinham deixado a rainha
matar Lady, e isso já fora suficientemente horrível,
mas depois o Cão de Caça encontrara Mycah. Jeyne
Poole dissera a Arya que o tinha cortado em tantos
pedaços que o devolveram ao carniceiro dentro de
um saco, e a princípio o pobre homem pensara
tratar-se de um porco morto. E ninguém levantara
uma voz ou puxara uma espada ou qualquer coisa, nem
Harwin, que falava sempre tão ousadamente, nem
Alyn, que ia ser um cavaleiro, ou Jory, que era
capitão da guarda. Nem mesmo seu pai.
- Ele era meu amigo - sussurrou Arya para o prato,
tão baixo que ninguém a ouviu. Suas costeletas
estavam ali, intocadas, esfriando, uma fina película
de gordura solidificando por baixo delas no prato.
Arya as olhou e se sentiu mal. Afastou a cadeira da
mesa.
- Perdão, onde pensa que vai, jovem senhora? -
perguntou Septã Mordane.
- Não tenho fome - Arya sentia dificuldade em
lembrar-se da boa educação. - Com a sua licença -
recitou rigidamente.
- Não a tem - disse a septã. - Quase não tocou na
comida. Sente-se e limpe o prato.
- Limpe-o você! - antes que alguém pudesse detê-la,
Arya saltou para a porta enquanto os homens riam e
Septã Mordane a chamava sonoramente, com a voz
cada vez mais aguda.
Gordo Tom estava em seu posto, guardando a porta
da Torre da Mão. Pestanejou ao ver Arya correr em
sua direção por entre os gritos da septã.
- Ora bem, pequena, espera - começou a dizer,
estendendo a mão, mas Arya deslizou entre suas
pernas e precipitou-se pelos degraus em espiral da
torre acima, com os pés martelando a pedra
enquanto Gordo Tom bufava de irritação atrás dela.
Seu quarto era o único lugar de que Arya gostava em
todo o Porto Real, e aquilo de que gostava mais nele
era a porta, uma maciça prancha de carvalho escuro
com reforços negros de ferro. Quando batia aquela
porta e deixava cair a pesada tranca, ninguém podia
entrar naquele quarto, nem Septã Mordane, nem
Gordo Tom, nem Sansa, nem Jory, nem o Cão de
Caça, ninguém! E a batia.
Depois de a tranca cair, Arya sentiu-se por fim
suficientemente em segurança para chorar. Foi até o
assento junto à janela e sentou-se ali, fungando,
odiando todos e a si mesma acima de tudo. Era tudo
culpa sua, tudo o que acontecera. Era o que Sansa
dizia, e Jeyne também.
Gordo Tom estava a batendo à porta.
- Menina Arya, o que se passa? - gritou. - Está aí?
- Não! - gritou Arya. As batidas pararam. Um
momento mais tarde, ouviu-o partir. Gordo Tom era
sempre fácil de enganar.
Arya dirigiu-se à arca que tinha aos pés da cama.
Ajoelhou-se, abriu o tampo e começou a tirar a
roupa lá de dentro com ambas as mãos, agarrando a
mãos-cheias seda, cetim, veludo e lã e atirando-as ao
chão. Ali estava, no fundo da arca, onde a escondera.
Arya ergueu-a quase com ternura e tirou a estreita
lâmina de sua bainha.
Agulha.
Pensou de novo em Mycah e os olhos se encheram de
lágrimas. Culpa sua, culpa sua, culpa sua. Se nunca
lhe tivesse pedido para brincar de espadas com ela...
Ouviu-se uma batida na porta, mais alta que antes.
- Arya Stark, abra esta porta
imediatamente, está ouvindo? Arya
rodopiou, com Agulha na mão.
- É melhor não entrar aqui! - preveniu, e golpeou o
ar ferozmente.
- A Mão ouvirá falar disto! - encolerizou-se Septã
Mordane.
- Não me importa - gritou Arya. - Vá embora.
- Vai se arrepender deste comportamento insolente,
senhorita, é uma promessa que lhe faço - Arya escutou à
porta até ouvir o som dos passos da septã se
afastando.
Regressou para junto da janela, com Agulha na mão,
e olhou o pátio lá embaixo. Se ao menos fosse capaz
de escalar como Bran, pensou; sairia pela janela e
desceria a torre, fugiria daquele lugar horrível, de
Sansa, da Septã Mordane e do Príncipe Joffrey, de
todos eles. Roubaria alguma comida da cozinha e
levaria Agulha, botas boas e um manto quente.
Poderia encontrar Nymeria nos bosques selvagens
abaixo do Tridente e regressariam juntas a
Winterfell, ou correriam até Jon, na Muralha. Deu
por si a desejar que Jon estivesse ali consigo. Então
talvez não se sentisse tão só.
Um suave toque na porta atrás dela fê-la virar as
costas à janela e aos seus sonhos de fuga.
- Arya - soou a voz do pai. - Abre a porta. Temos de
conversar.
Arya atravessou o quarto e ergueu a tranca. O pai
estava só. Parecia mais triste que zangado, fazendo
Arya sentir-se ainda pior.
- Posso entrar? - Arya fez que sim com a cabeça e
depois abaixou os olhos, envergonhada. O pai fechou
a porta. - De quem é essa espada?
- Minha - Arya quase esquecera que tinha Agulha na
mão.
- Dê-me.
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